Entre o engradecimento e o agradecimento

Ontem um paciente, ao sair, disse-me: “se você mudou a vida de alguém, algum dia, foi a minha”. Esta frase vem acompanhada de um agradecimento e de um engrandecimento pessoal do paciente. São frases assim que mexem com o ego e que, ao mesmo tempo, nos coloca mas nos tira também do lugar do “suposto saber”. É preciso ter humildade, o que não é fácil para ninguém. Diante desse acontecimento de luz, decidi fazer este post, uma vez que busco, dentro daquilo que entendo, aproximar a psicologia das pessoas. Nesse intuito, deixo claro que não é o psicólogo que muda a vida do sujeito, uma vez que a procura, o primeiro passo pela ajuda, é dado pelo paciente ao buscar a psicoterapia. E a busca é acompanhada da coragem e também do apoio de pessoas importantes na sua vida. Destaco que o psicólogo é um facilitador nesse processo. Na verdade, deve ser. E assim o é pela escuta. Facilita-se ao paciente a sua escuta pela escuta do psicólogo, daquilo que não é dito, diante de tantas defesas que o levaram a um desgaste emocional tamanho em lidar ou tentar lidar com seus conflitos, além das dificuldades e prejuízos sociais e pessoais. É daí que vem a importância significativa da psicoterapia da “pessoa do psicólogo”, desde a academia. Quem se escuta, melhor escuta o outro. Não há uma escuta tamanha a ponto de poder lidar com todos os problemas. A vida inconsciente se dá, se me permitem a comparação, ao iceberg submerso no grande mar ou a sua maior e muito maior parte. Aquele pedaço visível do iceberg, sobre o mar, é imensamente menor que todo seu restante: é o que se pensa, nada mais que o ego. A propósito, há uma ideia no senso comum de que ir ao psicólogo e poder se escutar é ter solução para todos os problemas. Não é o caso e não se trata disso. Cada um é diferente de cada um e na psicoterapia os objetivos são escutar-se melhor, não somente ouvir, e (re)significar o modo de como lidar com os problemas. Nesse sentido, abordo a respeito da empatia, que nada mais é a “capacidade de se colocar no lugar do outro”. Essa capacidade não diz respeito a saber exatamente o que o outro sente, mas de respeitar o tempo do outro e silenciar para escutar aquilo que não é dito. Não é tarefa fácil. Nunca foi. Nunca será. Mas é humano e muito humano buscar ser empático nas situações que se apresentam tanto para o profissional da psicologia, como para qualquer pessoa. Muitas vezes, não são as palavras que confortarão e nem ações conscientes, mas a presença e a presença do silêncio no auxiliar a suportar o outro a sua dor. Não suportaremos a dor do outro se não suportarmos a nossa. Não escutaremos o outro se não nos escutarmos. Não respeitaremos o outro se não nos respeitarmos. Não amaremos o outro se não nos amarmos. Eu teria muito assunto para discorrer num post. Poderia escrever e escrever. Mas o que mais importa aqui nestas linhas, é o fato de deixar claro que não é o psicólogo que muda a vida do sujeito e sim o sujeito ao se permitir a enfrentar seus medos da melhor forma possível (cada um lida do seu jeito), escutar-se melhor, respeitar-se mais. Quem busca a psicoterapia é o sujeito. Como psicólogos ou psiquiatras, estamos lá: parados, sentados, esperando a busca da ajuda. É pra isso que estudamos e nos preparamos. Não tenho e nem devo ter e nem mesmo pensar que tenho esse “poder”, até porque antes de psicólogo sou uma pessoa com os meus problemas, muitas vezes até maiores que o do paciente. Mas é claro que como psicólogo é prazeroso escutar que o sujeito consegue se escutar melhor a ponto de agradecer a partir do engrandecimento de si. E assim o mundo muda. Como? Sim, o mundo muda a partir da mudança de cada um. O entorno muda a partir da mudança de si mesmo. O mundo muda: o mundo eu. E essa mudança se dá pela busca do sujeito pela sua escuta e pela ajuda e apoio de pessoas importantes na sua vida. De qualquer forma, sem receio e sem vaidade, obrigado pelas palavras. Eu fico feliz e realizado quando alguém reconhece sua humildade e seu engrandecimento pela via do agradecimento. Destaco que não aprendi e não aprendo nada sozinho: aprendi com meus pais, família, amigos e meus queridos professores e psicoterapeutas, bem como com os pacientes. O mérito é sempre do paciente. Nosso trabalho é estar ali, com a mão estendida.

Cleuber Roggia – Psicólogo

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